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  • Ana Ayroza

Regulamentação de álcool e propaganda. Skol Beats 150BPM

Tem rodado na internet críticas ao lançamento da Skol, que com a cantora Anitta como Head de criatividade, lançou a Skol Beats Anitta, 150 BPM, com 13,9% de teor alcoólico.

E isso vai muuuuito além do que a maioria do público imagina. A começar...

150BPM é um funk transgressivo, que marca a volta dos bailes da favela, depois das UPPs, e que traz a possibilidade da emancipação financeira de muitos jovens que, através da música, conseguem se sustentar. Quer saber como é? Só jogar no youtube... E um nos nomes que aparece mais é o DJ Rennan da Penha. Ele foi um dos artistas que ajudou a popularizar esse novo gênero.

Até aí tudo bem, certo? Certo... acontece que em março desse ano, 2019, DJ Rennan da Penha, junto com mais dez homens, foi preso por associação ao tráfico de drogas ocorrido no "Baile da Gaiola". Não é minha intenção discutir sobre bailes funk, nem tráfico no Rio, nem as circunstâncias da prisão dele, vou deixar o link de uma matéria para quem quiser ler mais sobre¹.

Então, você pode imaginar a repercussão que esse lançamento tem né? No Rock In Rio desse ano teve homenagem a ele no "Espaço Favela".

Dito isso, temos uma artista internacional, que agora é Head de Criatividade de uma marca que alcança os jovens e fala muito com eles, colocando como nome de um novo produto da marca a sigla de um tipo de música que pode ser associada a atividades não muito lícitas.

Atenção! Não estou dizendo que 150BPM é música de tráfico, de maneira alguma! Mas a suposta ligação entre um artista, que ajudou esse gênero a bombar, com o tráfico, pode pegar mal pra Skol...

E o que significa 150 BPM? 150 Batidas Por Minuto. Joga no Youtube, vai ver do que eu to falando....


Ah... mas é só um tipo de música... é só um nome.... como você está exagerando!

Estou mesmo? Deixa eu te contar uma coisa que com certeza você não sabe.... Em 2002 eu fazia faculdade e resolvi que queria fazer parte de um Diretório Acadêmico. Consegui. Aprendi a fazer festas e cervejadas muito bem, bem de verdade. Festa para mais de 6 mil pessoas. E um dos contatos que eu mais ligava para essas festas era para a Skol. Tínhamos o telefone direto de um setor dentro da Skol que atendia festas de faculdade, e eu pedia em média, 1 caminhão de cerveja para cada cervejada. Por que Skol? Na época era o que a galera queria beber. Estava lá emcima, E cervejada sem Skol não era cervejada.

Quando era festa mais chique, além da cerveja tinham os fornecedores de vodka, whisky, energético... e para entrar nessas festas, era comum eles "doarem" algumas caixas, só para ter o bar com o nome deles. Isso era negociação padrão de festa de faculdade. Afinal, algumas garrafas em troca de exposição a milhares de jovens adultos que eram exatamente o público alvo das marcas. Tem marketing mais fácil? E a festa, ainda por cima, era open bar.... então o consumo era enorme e as marcas que conseguiam entrar alcançavam muita gente em algumas horas.

E aqui chego no ponto principal do texto. O que mudou?

Em 2002, sem Facebook, Instagram, Twitter, etc., o consumo de álcool era limitado a o que era oferecido ao redor da faculdade. Ou seja, demorava muito mais para qualquer novidade se espalhar pela cidade e dominar todas as festas e baladas. Claro que existia abuso, consumo inconsequente, e inclusive mistura com outras drogas. Dentro e fora do universo estudantil. Mas o alcance era menor, levava mais tempo para o estrago ser feito.

Hoje isso é muito mais rápido. E até pessoas que não frequentam mais esse universo de festas de madrugada sabem o que foi lançado, como foi lançado e por quem foi lançado... Exemplo... a que vos escreve...

A Skol com esse novo produto ainda vai ter dois "tiros". Um para essa galera, mundo universitário, que nunca deixou de ser alvo deles. Que ouve funk por causa da galera da facul, que mora em apartamento de luxo e se arruma para sair em seus saltos "Laboutin" ouvindo Sabotage, confirmando que a entrega foi feita e que o motorista já sabe o itinerário. Outro pra galera do 150BPM, que não é pequena. E aí pergunto.... será que vai dar certo?

100ml é pouco mais do que um Yakult. É uma dose dupla. E para quem vira vodka, virar 150BPM talvez não mude muito, mas não conheço a fórmula do produto ainda para saber dos possíveis efeitos colaterais de sua ingestão.

É hora de revermos as regras de divulgação, de propaganda dessa categoria de produtos. Se antes tínhamos uma campanha para tirar mulheres semi nuas de anúncios de cerveja, agora devemos ter um movimento para reorganizar os anúncios de substâncias que alteram o comportamento, mesmo sendo lícitas.

Agora, a regra do "falem mal mas falem de mim" continua valendo. Todo mundo que abriu a internet nos últimos dias sabe dessa nova bebida a ser lançada pela Ambev.


Fazia tempo que eu não escrevia, mas esse tópico ficou na minha cabeça. Quem tomar os goles roxos com certeza vai lembrar do "Vai dar PT! Vai dar."



¹https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/03/22/justica-determina-prisao-de-dj-rennan-da-penha-e-mais-10-envolvidos-no-baile-da-gaiola.ghtml







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